quarta-feira, 7 de maio de 2008
Parabéns Freud
quarta-feira, 16 de abril de 2008
segunda-feira, 31 de março de 2008
Podemos confiar totalmente nos nossos sentidos?
sexta-feira, 28 de março de 2008
O CONHECIMENTO CIENTÍFICO
A investigação científica é especializada: uma consequência da focagem científica dos problemas é a especialização. Não obstante a unidade do método científico, a sua aplicação depende, em grande medida, do assunto; isto explica a multiplicidade de técnicas e a relativa independência dos diversos sectores da ciência. (...) A especialização não impediu a formação de campos interdisciplinares, como a biofísica, a bioquímica, a psicofisiologia, a psicologia social, a teoria da informação, a cibernética ou a investigação operacional. Contudo, a especialização tende a estreitar a visão do cientista individual (...).
O conhecimento científico é claro e preciso: os seus problemas são distintos, os seus resultados são claros. (...) A ciência torna preciso o que o senso comum conhece de maneira nebulosa. (...)
O conhecimento científico é comunicável: não é inefável, mas expressável; não é privado, mas público. A linguagem científica comunica informações a quem quer que tenha sido preparado para a entender. (...) O que é inefável pode ser próprio da poesia ou da música, não da ciência, cuja linguagem é informativa e não expressiva ou imperativa. (...)
O conhecimento científico é verificável: deve passar pelo exame da experiência. Para explicar um conjunto de fenómenos, o cientista inventa conjecturas fundadas de algum modo no saber adquirido. As suas suposições podem ser cautelosas ou ousadas, simples ou complexas; em todo o caso, devem pôr-se à prova. O teste das hipóteses fácticas é empírico, isto é, observacional ou experimental. (...) Nem todas as ciências podem experimentar; e em certas áreas da astronomia e da economia, alcança-se uma grande exactidão sem ajuda da experimentação. (...)
A investigação científica é metódica: não é errática, mas planeada. Os investigadores não tacteiam na obscuridade; sabem o que buscam e como o encontrar. A planificação da investigação não exclui o azar; só que, ao deixar lugar para os acontecimentos imprevistos, é possível aproveitar a interferência do azar e a novidade inesperada. (...)Todo o trabalho de investigação se baseia no conhecimento anterior e, em particular, nas conjecturas melhor confirmadas. (...) Mais ainda, a investigação procede de acordo com regras e técnicas que se revelaram eficazes no passado, mas que são aperfeiçoadas continuamente, não só à luz de novas experiências, mas também de resultados do exame matemático e filosófico.
O conhecimento científico é sistemático: uma ciência não é um agregado de informações desconexas, mas um sistema de ideias ligadas logicamente entre si. Todo o sistema de ideias, caracterizado por um certo conjunto básico (mas refutável) de hipóteses peculiares, e que procura adequar-se a uma classe de factos, é uma teoria. (...)O carácter matemático do conhecimento científico -- isto é, o facto de ser fundado, ordenado e coerente -- é que o torna racional. A racionalidade permite que o progresso científico se efectue não só pela acumulação gradual de resultados, mas também por revoluções. (...)
O conhecimento científico é geral: situa os factos singulares em hipóteses gerais, os enunciados particulares em esquemas amplos. O cientista ocupa-se do facto singular na medida em que este é membro de uma classe, ou caso de uma lei; mais ainda, pressupõe que todo o facto é classificável, o que ignora o facto isolado. Por isso, a ciência não se serve dos dados empíricos -- que sempre são singulares -- como tais; estes são mudos enquanto não se manipulam e convertem em peças de estrutura teóricas. (...)
O conhecimento científico é legislador: busca leis (da natureza e da cultura) e aplica-as. O conhecimento científico insere os factos singulares em regras gerais chamadas "leis naturais" ou "leis sociais". Por detrás da fluência ou da desordem das aparências, a ciência factual descobre os elementos regulares da estrutura e do processo do ser e do devir. (...)
A ciência é explicativa: tenta explicar os factos em termos de leis e as leis em termos de princípios. Os cientistas não se conformam com descrições pormenorizadas; além de inquirir como são as coisas, procuram responder ao porquê: porque é que ocorrem os factos tal como ocorrem e não de outra maneira. A ciência deduz as proposições relativas aos factos singulares a partir de leis gerais, e deduz as leis a partir de enunciados nomológicos ainda mais gerais (princípios).
O conhecimento científico é preditivo: transcende a massa dos factos de experiência, imaginando como pode ter sido o passado e como poderá ser o futuro. A previsão é, em primeiro lugar, uma maneira eficaz de pôr à prova as hipóteses; mas também é a chave do controlo ou ainda da modificação do curso dos acontecimentos. A previsão científica, em contraste com a profecia, funda-se em leis e em informações específicas fidedignas, relativas ao estado de coisas actual ou passado. (...)
A ciência é aberta: não reconhece barreiras a priori, que limitem o conhecimento: Se o conhecimento fáctico não é refutável em princípio, então não pertence à ciência, mas a algum outro campo. As noções acerca do nosso meio natural ou social, ou acerca do nosso eu, não são finais; estão todas em movimento, todas são falíveis. Sempre é possível que possa surgir uma nova situação (novas informações ou novos trabalhos teóricos) em que as nossas ideias, por firmemente estabelecidas que pareçam, se revelem inadequadas em algum sentido. A ciência carece de axiomas evidentes; inclusive, os princípios mais gerais e seguros são postulados que podem ser corrigidos ou substituídos. Em virtude do carácter hipotético dos enunciados de leis, e da natureza perfectível dos dados empíricos, a ciência não é um sistema dogmático e fechado, mas controvertido e aberto. Ou melhor, a ciência é aberta como sistema, porque é falível, por conseguinte, capaz de progredir.
M. Bunge, La ciencia, su método in Um outro olhar sobre o mundo, p. 215-217
terça-feira, 25 de março de 2008
O que é a Filosofia?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
O CONHECIMENTO
ESTRUTURA DO ACTO DE CONHECER
1. Que tipos de conhecimento há?
Conhecimento de actividades. Por exemplo:
Saber tocar piano.
Saber andar de bicicleta.
Conhecimento de pessoas ou locais. Por exemplo:
Conhecer Paris.
Conhecer Luís Figo.
Conhecimento de proposições. Por exemplo:
Saber que Paris é uma cidade.
Saber que Aristóteles foi um filósofo.
2. O que é o conhecimento?
A crença é uma condição necessária para o conhecimento.
O conhecimento é factivo, ou seja, não se pode conhecer falsidades.
A verdade é uma condição necessária para o conhecimento
DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO
S sabe que P se, e só se,
a. S acredita que P.
b. P é verdadeira.
c. Há uma justificação para S acreditar que P.
Objecções: Os contra-exemplos de Gettier. Estes mostram que podemos ter uma justificação para acreditar em algo verdadeiro sem que esse algo seja conhecimento.
3. Quais são as fontes do conhecimento?
- Um sujeito sabe que P a priori se, e só se, sabe que P pelo pensamento apenas.
- Um sujeito sabe que P a posteriori se, e só se, sabe que P através da experiência.
- Um argumento é a priori se, e só se, todas as suas premissas são a priori.
- Um argumento é a posteriori se, e só se, pelo menos uma das suas premissas for a posteriori.
- Conhecemos algo inferencialmente quando conhecemos através de argumentos ou razões.
- Conhecemos algo não inferencialmente quando conhecemos directamente (por exemplo, através dos sentidos).
ANÁLISE COMPARATIVA DE DUAS
TEORIAS EXPLICATIVAS DO CONHECIMENTO
Será que o conhecimento é possível? Este é um dos problemas centrais da epistemologia.
Os cépticos consideram que não, argumentando da seguinte maneira:
1. Se há conhecimento, as nossas crenças estão justificadas.
2. Mas as nossas crenças não estão justificadas.
3. Logo, não há conhecimento.
- Este argumento é válido e a primeira premissa é geralmente aceite como verdadeira.
- Se a segunda premissa for verdadeira, então a conclusão também terá de o ser. Nesse caso, os cépticos estão certos.
Mas por que razão dizem os cépticos que as nossas crenças não estão justificadas?
Há um argumento que os cépticos apresentam precisamente para mostrar isso. É o argumento da regressão infinita da justificação:
1. Toda a justificação se infere de outras crenças.
2. Se toda a justificação se infere de outras crenças, então dá-se uma regressão infinita.
3. Se há uma regressão infinita, as nossas crenças não estão justificadas.
4. Logo, as nossas crenças não estão justificadas.
Este argumento também é válido. Mas será sólido?
- A primeira premissa diz que justificamos umas crenças a partir de outras crenças.
- Mas se é assim, diz-se na segunda premissa, o processo de justificação não tem fim, recuando sucessivamente de umas crenças para outras.
- Nesse caso, as nossas justificações serão sempre insuficientes, sugere-se na terceira premissa.
Existirá alguma falha no argumento da regressão infinita da justificação ou os cépticos têm mesmo razão?
- Os fundacionistas (Descartes e Hume) acham que os cépticos estão errados, mas por razões opostas.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O preconceito escondido com o inconsciente de fora…
Numa primeira experiência, com o objectivo de estudar as cognições implícitas, ou seja inconscientes, os investigadores criaram uma situação de teste em que se deveria responder clicando num teclado de computador com o mesmo dedo (direito) em resposta a palavras que dissessem respeito a coisas agradáveis e a nomes de flores e com a mão esquerda a palavras que dissessem respeito a coisas desagradáveis e a nomes de insectos. A tarefa era fácil. Depois inverteu-se e passou a ter de se responder com a mesma mão a insectos e coisas agradáveis e com a outra a flores e coisas desagradáveis. A tarefa fácil complicou-se, as respostas tornaram-se significativamente mais lentas. E nem a repetição acelerou as respostas…
O verdadeiro desafio, no que diz respeito aos preconceitos, começou quando se trocou os nomes de insectos e flores por nomes de brancos e negros famosos: os negros funcionavam da mesma forma que os nomes de insectos mesmo para algumas pessoas que não se julgavam preconceituosas como os psicólogos em causa.
Mahzarin Banaji, uma das psicólogas, explicou a situação dizendo: “tencionava associar branco com bom tão rapidamente como queria associar negro com bom – este era o meu objectivo consciente – mas falhava.”
O seu estudo é uma peça interessante para a compreensão dos preconceitos e da sua componente inconsciente, a que chamaram “as atitudes raciais implícitas”
O testemunho completo destes psicólogos pode ser lido aqui.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Elogio ao Amor
AMOR, essa palavra tantas vezes contada, repetida, deitada fora, cuspida, sentida, engolida em seco. Amor - fogo que arde sem se ver, amor proibido, amor louco, amor romântico, amor sexo, amor à primeira vista, amor à segunda vista... amor às vistas todas. Amor Platónico. Amor Puro. Amor Eterno.
« Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro.
Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice,facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.
A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.»
