terça-feira, 16 de junho de 2009

A construção do conhecimento

Ao contrário do que Watson e os comportamentalistas pensavam, o homem não é produto do seu meio. Bruner, assim como Piaget, chamou a atenção para o papel activo do sujeito na construção de estratégias cognitivas que lhe permitam ajustar-se e sobreviver no mundo. Este ajustamento depende do conhecimento que o indíviduo constrói acerca da realidade, pelo que não resulta unicamente da influência do meio. Assim, por muito que recuemos do psicológico para o biológico, o que encontramos são, sempre, estratégias cognitivas.
O artigo que se segue aborda as competências coognitivas reveladas por bébés com, apenas, alguns meses de idade: noções de física, de aritmética, distinção entre acções intencionais e não intencionais, distinção entre seres autónomos e corpos inanimados. As competências evidenciadas são bastante elaboradas, o que levanta a questão de saber como surgem tais competências. Se, por um lado, são demasiado elaboradas para surgirem do nada, também é verdade que surgem demasiado cedo para serem ensinadas. O título do artigo é bem sugestivo: A contar no berço...

http://dererummundi.blogspot.com/search/label/Comportamento



terça-feira, 21 de abril de 2009

Aula Prática de Filosofia

Para realizar uma aula prática de filosofia é necessário apenas respirar fundo e aguardar dez segundos. Tudo o resto é mera consequência. Mas antes de começar é necessário atender a um conjunto de pré-requisitos essenciais:
1º não acredite que filosofar é estar fora do mundo,
2º descontraia o suficiente mas não adormeça;
3º use o corpo inteiro – a cabeça, o tronco e os membros;
4º sinta o coração bater (com a mão no peito caso não o comprove);
5º fixe com o olhar o sol até cegar por completo;
6º guarde nesse instante a última memória do mundo e feche os olhos;
7ºcompare o dia de hoje com os outros dias. É provável que as diferenças sejam pequenas. Se você nasceu ontem, o dia de hoje será idêntico ao de amanhã;
8ºse você nasceu há mais tempo é provável que amanhã seja tarde,
9ºnão se precipite. Na maior parte das vezes você ainda tem tempo para um bom pedacinho de ar;
10º pense, pense nos pais, nos irmãos, nos avós, na esposa, nos filhos, na namorada, nos amigos;
11º repense. Repense como seria se não pudesse agora estar a pensar;
12ºcante, grite bem alto o seu nome até estremecer;
13º repare no eco da sua voz;
14º reconheça o seu corpo, o seu rosto e o brilho do seu olhar em frente a um espelho (os olhos devem estar abertos);
15º reconheça os outros rostos, outros corpos, outras vozes;
16º respire fundo e abandone as preocupações. As pré-ocupações são tão desnecessárias como a maioria das mensagens de telemóvel;
17º medite em palavras fáceis como mãe, amigo, paz, liberdade, vida;
18º tome mais um pedaço de ar, feche os olhos, relaxe e sorria...amanhã talvez alguém responda a esse sorriso;
19º respeite os sorrisos. Faça cara séria a quem não respeitar o seu sorriso e entregue-lhe este documento;
20º não acredite em distâncias. Se aquilo que procura está longe faça-se ao caminho.

José Miguel de Oliveira
3/III/2005


post scriptum: em 21 de Abril de 2009 percorrendo as mesmas distâncias porque o que importa não é o lugar mas quem levamos na viagem...(do autor)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

TIPOS DE APRENDIZAGEM

A aprendizagem consiste na aquisição de um comportamento ou na modificação de uma conduta já existente, a partir da experiência. Esta aquisição ou modificação deve apresentar um carácter estável e permanente. A aprendizagem é um processo mental fundamental na cognição humana e na sua adaptação ao meio. A adaptação do ser humano depende desta capacidade flexível de adquirir os comportamentos mais adaptativos e de introduzir modificações nas condutas de forma a aumentar o seu valor adaptativo. Importa, portanto, compreender o que é aprender e de que forma aprendemos: podemos aprender por condicionamento clássico ou operante, por observação e imitação, por intuição ou insight, por tentativas e erros...
No blog que a seguir é apresentado poderá rever as descrições das experiências de investigadores que se dedicaram ao estudo da aprendizagem; poderá também visualizar os filmes das experiências de investigadores como Pavlov, Skinner ou Bandura...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dia Internacional da Filosofia

No próximo dia 20 de Novembro comemora-se o Dia Internacional da Filosofia. Este dia foi instituído pela UNESCO em 2005 e é comemorado todos os anos na terceira quinta-feira do mês de Novembro.
Segundo este organismo, o questionar crítico da Filosofia permite dar um sentido à vida e à nossa acção, sendo por isso incontornável.
É nesse sentido e para vos lembrar a necessidade de termos uma atitude crítica num mundo em rápida e profunda transformação que o grupo de filosofia da Escola Secundária de D. Sancho II levará a cabo algumas actividades. Desde já agradecemos a colaboração de toda a comunidade escolar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A lateralização hemisférica e a diferenciação funcional entre os hemisférios


O ser humano, tal como os restantes mamíferos, apresenta uma lateralização hemisférica. Na espécie humana existe uma diferenciação funcional entre o hemisfério direito e o hemisfério esquerdo. Investigações realizadas nos anos 60, nomeadamente pelo neurocientista Roger Sperry, permitiram compreender melhor o funcionamento do cérebro e o papel desempenhado por cada hemisfério. No instituto de neurologia da Califórnia procedeu-se a intervenções cirúrgicas em doentes epilépticos para impedir que a actividade eléctrica passasse de um hemisfério a outro. Os cirurgiões seccionaram o corpo caloso (feixe de fibras nervosas que liga os dois hemisférios) e, efectivamente, os doentes melhoraram das crises convulsivas. No entanto, surgiram outras consequências não previstas... No artigo que se segue relata-se algumas consequências que Sperry observou nos seus pacientes, depois de terem sido submetidos à cirurgia do Brain-Split (seccionamento do corpo caloso).

A experiência de Roger Sperry


terça-feira, 16 de setembro de 2008

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Obesidade Mental

O professor Andrew Oitke publicou o seu polémico livro « Mental Obesity » que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Segundo o autor, « as pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada. O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos acham que Saddam foi mau e Mandella é bom, mas nem deconfiam porquê. Todos enunciam o teorema de Pitágoras, mas desconhecem o que é um cateto.
Os cozinheiros deste fast food intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação, romancistas, realizadores de cinema, etc. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação ».
O problema central está na família e na escola. Não se entende como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados violentos, videojogos e telenovelas. Com uma alimentação intelectual tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam ter uma vida saudável e equilibrada.
Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. Não se trata do fim da civilização, como alguns apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, mas sobretudo de DIETA MENTAL.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Parabéns Freud

Freud fez ontem 152 anos. Em vez de lhe desejarmos que conte muitos, de saúde e na companhia dos seus, como se costuma fazer, desejamos que seja lido, criticado, "ultrapassado", como um grande pensador merece.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Podemos confiar totalmente nos nossos sentidos?

A evidência dos dados dos sentidos é desmentida pelo exemplo das ilusões perceptivas como se pode ver, entre tantos outros exemplos, aqui.

sexta-feira, 28 de março de 2008

O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

O conhecimento científico é fáctico: Parte dos factos, respeita-os até certo ponto e sempre retorna a eles. A ciência procura descobrir os factos tais como são, independentemente do seu valor emocional ou comercial: a ciência não poetiza os factos. Em todos os campos, a ciência começa por estabelecer os factos: isto requer curiosidade impessoal, desconfiança pela opinião prevalecente e sensibilidade à novidade. (...)Nem sempre é possível, nem sequer desejável, respeitar inteiramente os factos quando se analisam, e não há ciência sem análise, mesmo quando a análise é apenas um meio para a reconstrução final do todo. O físico perturba o átomo que deseja espiar; o biólogo modifica e pode inclusive matar o ser vivo que analisa; o antropólogo, empenhado no seu estudo de campo de uma comunidade, provoca nele certas modificações. Nenhum deles apreende o seu objecto tal como é, mas tal como fica modificado pela suas próprias operações. (...) O conhecimento científico transcende os factos: põe de lado os factos, produz factos novos e explica-os. O senso comum parte dos factos e atém-se a eles: amiúde, limita-se ao facto isolado, sem ir muito longe no trabalho de o correlacionar com outros, ou de o explicar. Pelo contrário, a investigação científica não se limita aos factos observados: os cientistas exprimem a realidade a fim de ir mais além das aparências; recusam o grosso dos factos percebidos, por serem um montão de acidentes, seleccionam os que julgam relevantes, controlam factos e, se possível, reproduzem-nos. Inclusive, produzem coisas novas, desde instrumentos até partículas elementares; obtêm novos compostos químicos, novas variedades vegetais e animais e, pelo menos em princípio, criam novas regras de conduta individual e social. (...)Há mais: o conhecimento científico racionaliza a experiência, em vez de se limitar a descrevê-la; a ciência dá conta dos factos, não os inventariando, mas explicando-os por meio de hipóteses (em particular, enunciados e leis) e sistemas de hipóteses (teorias). Os cientistas conjecturam o que há por detrás dos factos observados e, em seguida, inventam conceitos (como os de átomo, campo, classe social, ou tendência histórica), que carecem de correlato empírico, isto é, que não correspondem a perceptos, ainda que presumivelmente se referem a coisas, qualidades ou relações existentes objectivamente. (...)
A investigação científica é especializada: uma consequência da focagem científica dos problemas é a especialização. Não obstante a unidade do método científico, a sua aplicação depende, em grande medida, do assunto; isto explica a multiplicidade de técnicas e a relativa independência dos diversos sectores da ciência. (...) A especialização não impediu a formação de campos interdisciplinares, como a biofísica, a bioquímica, a psicofisiologia, a psicologia social, a teoria da informação, a cibernética ou a investigação operacional. Contudo, a especialização tende a estreitar a visão do cientista individual (...).
O conhecimento científico é claro e preciso: os seus problemas são distintos, os seus resultados são claros. (...) A ciência torna preciso o que o senso comum conhece de maneira nebulosa. (...)
O conhecimento científico é comunicável: não é inefável, mas expressável; não é privado, mas público. A linguagem científica comunica informações a quem quer que tenha sido preparado para a entender. (...) O que é inefável pode ser próprio da poesia ou da música, não da ciência, cuja linguagem é informativa e não expressiva ou imperativa. (...)
O conhecimento científico é verificável: deve passar pelo exame da experiência. Para explicar um conjunto de fenómenos, o cientista inventa conjecturas fundadas de algum modo no saber adquirido. As suas suposições podem ser cautelosas ou ousadas, simples ou complexas; em todo o caso, devem pôr-se à prova. O teste das hipóteses fácticas é empírico, isto é, observacional ou experimental. (...) Nem todas as ciências podem experimentar; e em certas áreas da astronomia e da economia, alcança-se uma grande exactidão sem ajuda da experimentação. (...)
A investigação científica é metódica: não é errática, mas planeada. Os investigadores não tacteiam na obscuridade; sabem o que buscam e como o encontrar. A planificação da investigação não exclui o azar; só que, ao deixar lugar para os acontecimentos imprevistos, é possível aproveitar a interferência do azar e a novidade inesperada. (...)Todo o trabalho de investigação se baseia no conhecimento anterior e, em particular, nas conjecturas melhor confirmadas. (...) Mais ainda, a investigação procede de acordo com regras e técnicas que se revelaram eficazes no passado, mas que são aperfeiçoadas continuamente, não só à luz de novas experiências, mas também de resultados do exame matemático e filosófico.
O conhecimento científico é sistemático: uma ciência não é um agregado de informações desconexas, mas um
sistema de ideias ligadas logicamente entre si. Todo o sistema de ideias, caracterizado por um certo conjunto básico (mas refutável) de hipóteses peculiares, e que procura adequar-se a uma classe de factos, é uma teoria. (...)O carácter matemático do conhecimento científico -- isto é, o facto de ser fundado, ordenado e coerente -- é que o torna racional. A racionalidade permite que o progresso científico se efectue não só pela acumulação gradual de resultados, mas também por revoluções. (...)
O conhecimento científico é geral: situa os factos singulares em hipóteses gerais, os enunciados particulares em esquemas amplos. O cientista ocupa-se do facto singular na medida em que este é membro de uma classe, ou caso de uma lei; mais ainda, pressupõe que todo o facto é classificável, o que ignora o facto isolado. Por isso, a ciência não se serve dos dados
empíricos -- que sempre são singulares -- como tais; estes são mudos enquanto não se manipulam e convertem em peças de estrutura teóricas. (...)
O conhecimento científico é legislador: busca leis (da natureza e da cultura) e aplica-as. O conhecimento científico insere os factos singulares em regras gerais chamadas "leis naturais" ou "leis sociais". Por detrás da fluência ou da desordem das aparências, a ciência factual descobre os elementos regulares da estrutura e do processo do ser e do devir. (...)
A ciência é explicativa: tenta explicar os factos em termos de leis e as leis em termos de princípios. Os cientistas não se conformam com descrições pormenorizadas; além de inquirir como são as coisas, procuram responder ao porquê: porque é que ocorrem os factos tal como ocorrem e não de outra maneira. A ciência
deduz as proposições relativas aos factos singulares a partir de leis gerais, e deduz as leis a partir de enunciados nomológicos ainda mais gerais (princípios).
O conhecimento científico é preditivo: transcende a massa dos factos de experiência, imaginando como pode ter sido o passado e como poderá ser o futuro. A previsão é, em primeiro lugar, uma maneira eficaz de pôr à prova as hipóteses; mas também é a chave do controlo ou ainda da modificação do curso dos acontecimentos. A previsão científica, em contraste com a profecia, funda-se em leis e em informações específicas fidedignas, relativas ao estado de coisas actual ou passado. (...)
A ciência é aberta: não reconhece barreiras
a priori, que limitem o conhecimento: Se o conhecimento fáctico não é refutável em princípio, então não pertence à ciência, mas a algum outro campo. As noções acerca do nosso meio natural ou social, ou acerca do nosso eu, não são finais; estão todas em movimento, todas são falíveis. Sempre é possível que possa surgir uma nova situação (novas informações ou novos trabalhos teóricos) em que as nossas ideias, por firmemente estabelecidas que pareçam, se revelem inadequadas em algum sentido. A ciência carece de axiomas evidentes; inclusive, os princípios mais gerais e seguros são postulados que podem ser corrigidos ou substituídos. Em virtude do carácter hipotético dos enunciados de leis, e da natureza perfectível dos dados empíricos, a ciência não é um sistema dogmático e fechado, mas controvertido e aberto. Ou melhor, a ciência é aberta como sistema, porque é falível, por conseguinte, capaz de progredir.

M. Bunge, La ciencia, su método in Um outro olhar sobre o mundo, p. 215-217

terça-feira, 25 de março de 2008

O que é a Filosofia?

Todos os que estudaram Filosofia foram já confrontados com a pergunta, com a sua dificuldade, com a variedade de respostas possíveis. A pergunta passou das salas de aulas para a televisão e a SIC incluiu no seu telejornal uma peça a partir desta questão. Para ver aqui.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O CONHECIMENTO

ESTRUTURA DO ACTO DE CONHECER

1. Que tipos de conhecimento há?

Conhecimento de actividades. Por exemplo:
 Saber tocar piano.
 Saber andar de bicicleta.

Conhecimento de pessoas ou locais. Por exemplo:
 Conhecer Paris.
 Conhecer Luís Figo.

Conhecimento de proposições. Por exemplo:
 Saber que Paris é uma cidade.
 Saber que Aristóteles foi um filósofo.


2. O que é o conhecimento?

􀂄 A crença é uma condição necessária para o conhecimento.

􀂄 O conhecimento é factivo, ou seja, não se pode conhecer falsidades.

􀂄 A verdade é uma condição necessária para o conhecimento


DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO


S sabe que P se, e só se,

a. S acredita que P.
b. P é verdadeira.
c. Há uma justificação para S acreditar que P.

Objecções: Os contra-exemplos de Gettier. Estes mostram que podemos ter uma justificação para acreditar em algo verdadeiro sem que esse algo seja conhecimento.

3. Quais são as fontes do conhecimento?

- Um sujeito sabe que P a priori se, e só se, sabe que P pelo pensamento apenas.

- Um sujeito sabe que P a posteriori se, e só se, sabe que P através da experiência.

- Um argumento é a priori se, e só se, todas as suas premissas são a priori.

- Um argumento é a posteriori se, e só se, pelo menos uma das suas premissas for a posteriori.

- Conhecemos algo inferencialmente quando conhecemos através de argumentos ou razões.

- Conhecemos algo não inferencialmente quando conhecemos directamente (por exemplo, através dos sentidos).



ANÁLISE COMPARATIVA DE DUAS
TEORIAS EXPLICATIVAS DO CONHECIMENTO

Será que o conhecimento é possível? Este é um dos problemas centrais da epistemologia.


Os cépticos consideram que não, argumentando da seguinte maneira:

1. Se há conhecimento, as nossas crenças estão justificadas.
2. Mas as nossas crenças não estão justificadas.
3. Logo, não há conhecimento.

- Este argumento é válido e a primeira premissa é geralmente aceite como verdadeira.
- Se a segunda premissa for verdadeira, então a conclusão também terá de o ser. Nesse caso, os cépticos estão certos.

Mas por que razão dizem os cépticos que as nossas crenças não estão justificadas?

Há um argumento que os cépticos apresentam precisamente para mostrar isso. É o argumento da regressão infinita da justificação:

1. Toda a justificação se infere de outras crenças.
2. Se toda a justificação se infere de outras crenças, então dá-se uma regressão infinita.
3. Se há uma regressão infinita, as nossas crenças não estão justificadas.
4. Logo, as nossas crenças não estão justificadas.

Este argumento também é válido. Mas será sólido?


- A primeira premissa diz que justificamos umas crenças a partir de outras crenças.
- Mas se é assim, diz-se na segunda premissa, o processo de justificação não tem fim, recuando sucessivamente de umas crenças para outras.
- Nesse caso, as nossas justificações serão sempre insuficientes, sugere-se na terceira premissa.


Existirá alguma falha no argumento da regressão infinita da justificação ou os cépticos têm mesmo razão?


- Os fundacionistas (Descartes e Hume) acham que os cépticos estão errados, mas por razões opostas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O preconceito escondido com o inconsciente de fora…

A Psicologia Social criou algumas experiências audazes que colocam em causa a imagem e a auto-estima do ser humano. Do ser humano em geral e daqueles que nelas participaram em particular. Os investigadores, por razões experimentais óbvias, ficam habitualmente do confortável lado de fora das suas experiências. Com um teste inovador, o chamado IAT (Teste de Associação Implícita), um par de psicólogos confrontaram-se directamente com os seus preconceitos inconscientes…

Numa primeira experiência, com o objectivo de estudar as cognições implícitas, ou seja inconscientes, os investigadores criaram uma situação de teste em que se deveria responder clicando num teclado de computador com o mesmo dedo (direito) em resposta a palavras que dissessem respeito a coisas agradáveis e a nomes de flores e com a mão esquerda a palavras que dissessem respeito a coisas desagradáveis e a nomes de insectos. A tarefa era fácil. Depois inverteu-se e passou a ter de se responder com a mesma mão a insectos e coisas agradáveis e com a outra a flores e coisas desagradáveis. A tarefa fácil complicou-se, as respostas tornaram-se significativamente mais lentas. E nem a repetição acelerou as respostas…

O verdadeiro desafio, no que diz respeito aos preconceitos, começou quando se trocou os nomes de insectos e flores por nomes de brancos e negros famosos: os negros funcionavam da mesma forma que os nomes de insectos mesmo para algumas pessoas que não se julgavam preconceituosas como os psicólogos em causa.
Mahzarin Banaji, uma das psicólogas, explicou a situação dizendo: “tencionava associar branco com bom tão rapidamente como queria associar negro com bom – este era o meu objectivo consciente – mas falhava.”
O seu estudo é uma peça interessante para a compreensão dos preconceitos e da sua componente inconsciente, a que chamaram “as atitudes raciais implícitas”
O testemunho completo destes psicólogos pode ser lido aqui.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Elogio ao Amor

Serve também para lembrar em dia de S. Valentim que o Amor é sempre que o Homem quiser... 365 dias por ano e 366 em ano bissexto.
Dizem que o amor vai pelas ruas da amargura...
AMOR, essa palavra tantas vezes contada, repetida, deitada fora, cuspida, sentida, engolida em seco. Amor - fogo que arde sem se ver, amor proibido, amor louco, amor romântico, amor sexo, amor à primeira vista, amor à segunda vista... amor às vistas todas. Amor Platónico. Amor Puro. Amor Eterno.
Amor. Eu não sei o que é. Há textos geniais. Há pessoas que percebem melhor do que eu... Por isso escolhi este texto. Enquanto alguém escrever o AMOR, ele não morre.
ELOGIO AO AMOR
« Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro.
Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito.
Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice,facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.

A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra.
A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.»
Miguel Esteves Cardoso - Expresso

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

PARA REFLECTIR A PROPÓSITO DE ...ARGUMENTAÇÃO, VERDADE E SER.

Como é possível entrever na polémica travada por Platão contra os sofistas, o problema da verdade é um dos mais complexos da filosofia. No texto que se segue, Roger Mucchielli coloca precisamente esta questão...


"O problema da verdade liga-se intimamente ao problema do conhecimento. Pode dizer-se que a verdade é o valor absoluto de uma ideia ou de uma relação perfeitamente intelígivel e demonstrada. Proceder assim é pôr a verdade "acima da experiência", no mundo do pensamento, como propõe o racionalismo. Pode também dizer-se que a verdade é a própria experiência, o concreto, o mundo das percepções - assim procede o empirismo; ou ainda que a verdade é uma exigência do espírito humano, como afirma o idealismo.Seguiremos outra via de apresentação e mostraremos que a compreensão da noção de verdade passa da objectividade à subjectividade, do mundo ao homem, do facto ao ideal. Havérá uma verdade? Todos os que colocam esta questão e a resolvem pela negativa ou pela dúvida retomam forçosamente os argumentos dos cépticos gregos (...). "O homem é a medida de todas as coisas", dizia Protágoras, e esta fórmula tornou-se a divisa de todos os antidogmatismos, isto é, de todos os esforços para conduzir as verdades ditas eternas ou absolutas a pequenas verdades, tão relativas ao modo humano de viver e compreender, relativas à época, ao carácter, às influências, que até já nem parecem verdades. Nós dizemos muitas vezes que gostos e cores não se discutem, que tudo contém uma parcela da verdade, que tudo depende do ponto de vista, que a verdadade para cá dos Pirinéus é o erro do lado de lá, como dizia Pascal, e que é preciso, como Montaigne, fazer orelhas moucas; Que sei eu?, deixamos de procurar a verdade sempre caduca, sujeita a caução, ou fonte de tormentos; contentemo-nos de bom grado e em vez disso, com certo jogo de boas pequenas verdades práticas, as que são eficazes e que permitem, a propósito das grandes questões, uma tolerância verdeiramente respeitável.Há uma verdade? É difícil responder a isto, se nos colocarmos no plano dos factos e, sobretudo, se aceitarmos que a verdade é alguma coisa que se poderia encontrar o ouro na areia ou o caroço num fruto. Nunca poderemos ter uma verdade deste tipo.(...) Com efeito, aquele que crê possuir a verdade como algo de indubitável é um ser perigoso: tem tendência para exigir do outro a conversão ou a morte, depressa se torna intolerante ou fanático. Ora, nós sentimos de uma forma irre´sistível, e a história confirma, que o fanatismo tam como o dogmatismo, são mestres em erros e crimes.
Roger Mucchielli, Philosophie de la connaissance

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Estudos e experiências em Psicologia

Quando estudamos a Psicologia tomamos conhecimento de um conjunto variado de estudos e experiências que nos elucidam sobre aspectos centrais do nosso comportamento e funcionamento mental. Obviamente que nem todas as experiências realizadas em Psicologia são estudadas na escola. Das inúmeras que ficam de fora, algumas podem ser classificadas como "esquisitas". Daí que um blogue especializado em Psicologia se tenha lembrado de apresentar e de colocar à votação os dez estudos mais esquisitos em Psicologia (disponível apenas em inglês).

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A irrelevância da Filosofia

A irrelevância da filosofia
Jornal Público
15.01.2008, Desidério Murcho

A filosofia é irrelevante, num certo sentido. No sentido psicológico em que a generalidade das pessoas se está nas tintas para o escrutínio cuidadoso das suas convicções. Mas, nesse sentido psicológico, quase tudo é irrelevante para quase toda a gente: quase ninguém no mundo tem paciência para aprender a dirigir uma orquestra, ou para saber física quântica, ou para conduzir táxis ou para fazer pão.
Os filósofos ocupam-se do estudo cuidadoso das nossas convicções e crenças mais básicas. Tão básicas que, por vezes, não temos sequer consciência de que as temos: apenas agimos aceitando-as como pressupostos óbvios. Eis alguns exemplos: pensamos que o mundo não foi criado há dez minutos, com todos os falsos indícios para nos fazer pensar o contrário; pensamos que as outras pessoas têm uma interioridade como a nossa, não sendo meros autómatos; pensamos que o que acontece no passado é um bom guia para o que acontece no futuro, e que, por isso, a água que ontem nos saciou a sede hoje não vai envenenar-nos.
Os filósofos ocupam-se, em grande parte, do estudo destas convicções profundas. E um dos aspectos que mais nos interessam é a justificação. Sem dúvida que a justificação é irrelevante para a generalidade das pessoas. As pessoas não acreditam em todas aquelas coisas por haver ou deixar de haver boas justificações para elas. Mas, para os filósofos, é irrelevante que para a generalidade das pessoas as justificações sejam irrelevantes. Para o maestro, também é irrelevante que para a maior parte das pessoas saber dirigir uma orquestra seja irrelevante. Não é irrelevante para o maestro.
Pensa-se por vezes que a filosofia serve apenas para pôr uma cereja de erudição e autoridade em cima do bolo das nossas convicções mais queridas. Mas isto é perverter a filosofia. A atitude filosófica por excelência é a atitude socrática de examinar a nossa vida, pois "uma vida não examinada não vale a pena ser vivida", como Platão (427-347 a.C.) escreveu na Apologia, p. 38a. Este trabalho filosófico é irritante, incómodo, irrelevante? Talvez. Mas é isto a filosofia - e não elucubrações que visam a adesão irreflectida do ouvinte, reformulando com palavras caras os preconceitos que nos são mais queridos. Filosofar é destruir preconceitos e não perfumá-los com o bálsamo da moda.
A atitude socrática deu origem à física, à história e à musicologia, entre outras coisas, e ainda está na base destas actividades. A maior parte das pessoas não tinha grande interesse em justificar a convicção de que os objectos caem; nem em justificar a convicção de que a Terra está imóvel. Mas algumas pessoas deram-se a esse trabalho. E hoje compreendemos melhor o mundo por causa dessa atenção à justificação. O que Sócrates queria dizer é que a vida será emocionalmente mais pobre se não dermos atenção à justificação das nossas crenças mais profundas. Essa atenção liberta-nos do nosso paroquialismo emocional. Transforma-nos em cidadãos do universo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Psicologia do desenvolvimento: o papel do meio e dos genes

No Jornal Público de 7 de Janeiro vem uma notícia insólita mas verdadeira. Nos Estados Unidos, duas gémeas, separadas muito precocemente devido a um estudo de Psicologia sobre o papel do meio e dos genes de contornos ainda não esclarecidos, reencontram-se na idade adulta quase por acaso. Apesar de serem duas pessoas completamente diferentes, partilham uma obsessão pelo cinema, àrea que ambas estudaram e em que trabalham.
Esta é uma notícia que serve também para interrogar os limites éticos das investigações em Psicologia.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Relações Precoces: as capacidades sociais do bebé

Um texto que dá conta de uma investigação sobre as capacidades precoces de relação social dos bebés e que entra no debate sobre o herdado/adquirido.

Para ler aqui: http://dn.sapo.pt/2007/11/23/ciencia/bebes_craques_esfera_social.html